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Foram os "animal spirits" que causaram a crise?


Acho piada (no mau sentido) a esta explicação keynesiana dos animal spirits, para as crises, que infelizmente é muito popular entre os comentadores, que aparecem nos nossos meios de comunicação social, e entre os nossos políticos.

Quer dizer que tudo corria bem, até que certo dia as pessoas são invadidas por pensamentos irracionais e lançam a economia numa crise, sem que haja algum fundamento real para que isso aconteça. Segundo o autor deste texto, que fala elogiosamente do livro "Animal Spirits: How Human Psychology Drives the Economy, and Why it Matters for Global Capitalism", o que explica as crises é a degradação moral dos agentes económicos, que vão diminuindo a sua aversão à corrupção.

Escreve o autor do texto, seguindo as ideias do livro, “o renovar cíclico de tais ondas assenta no facto de haver por parte dos agentes ou organizações, em determinados períodos, a crença de que é fácil obter ganhos indevidos sem sofrer uma penalidade de dimensão equivalente.” Temos de nos perguntar é se isso aconteceu unicamente porque os agentes foram tomados pelos tais “animal spirits”, ou se de facto há razões reais que levaram a essas decisões.

Então, vejamos, havia garantias implícitas do governo americano à Fannie Mae e Freddie Mac, acreditava-se que em caso de crise grave o governo não deixaria cair os grandes bancos (tal como havia feito no passado, e de facto voltou a fazer), o Fed manteve taxas de juro muito baixas praticamente durante a primeira metade da década de 2000, o que (1) motivou a bolha do mercado imobiliário, criando a ilusão que as casas valorizariam todos os anos entre 10% a 20%, e (2) inundou o mercado financeiro de liquidez, levando muitos bancos a seguir politicas perigosas de endividamento. Quando o Fed começou a subir as taxas de juro, para conter a inflação, a bolha ainda se aguentou durante mais uns anos, mas acabou por rebentar em 2008. Será que todas estas medidas, por parte do estado e da Reserva Federal, não ajudaram a fazer crescer a crença de que não haveria “penalidade de dimensão equivalente” aos ganhos?

Parece-me óbvio, que os bancos tinham um forte incentivo a arriscar demasiado, porque se ganhassem, os lucros eram deles, se perdessem, eram salvos pelo estado. Os lucros também pareciam muito fáceis, com os bancos a receberem crédito barato junto do Fed, que depois usavam para alimentar a bolha do imobiliário.

Perante isto, como é possível alguém ainda acreditar nesta história dos “animal spirits”?

PS: um bom reconhecimento das causas da crise, é importante para saber qual a melhor forma de a ultrapassar. Se a crise fosse apenas “psicológica”, poderíamos recorrer a alguma acção do estado para resolver a situação. No entanto, esta crise tem causas bem reais, nas quais está bem presente a mão do estado a distorcer os mercados. Se foi o estado e a Reserva Federal que causaram a crise, será que a podem resolver? Não me parece.

Especuladores, amigo ou inimigo?


Desde há muito que a palavra especulação tem uma conotação negativa, mas em boa verdade esquecemo-nos muitas vezes que um especulador não é mais do que um agente de mercado, não sendo portanto nem bom nem mau.
De facto a especulação não é mais do que um negócio como outro qualquer, que tem os seus riscos associados e em média as mais valias que o especulador obtém servem precisamente para remunerar o seu trabalho, pois ao contrário do que muitos pensam, não existem almoços-grátis.
Mas para mim, o especulador acaba por ter uma importância associada à qualidade da informação. Quantos de nós não usam a informação de mercado como melhor estimativa para a evolução futura de determinado índice?
Por exemplo, para a função que desempenho é-me particularmente útil obter estimativas razoáveis para por exemplo o preço futuro do crude ou da taxa euribor futura. E que melhor estimativa senão a que é dada pelo mercado, pela intervenção dos diferentes especuladores? Afinal a melhor estimativa é a média do que todos os investidores (perdão, especuladores) pensam, ou seja, o preço do mercado.
Através da sua actividade, possibilitam a liquidez dos mercados financeiros. Assim sendo, poder-se-á até dizer que o especulador tem um papel social, pois contribui de forma decisiva para a formação dos preços dos mercados financeiros e para a eficiência de todo o sistema.
Mesmo os que possuem informação privada, acabam por contribuir para a sua dissiminação, ao especularem sobre determinado activo.
Normalmente a imagem do especulador cai em desgraça quando surgem notícias sobre ganhos fabulosos na bolsa por parte de alguns, como por exemplo o George Soros. Mas curiosamente ninguém sente pena por todos os outros especuladores que perderam dinheiro, pois afinal o jogo da bolsa é um jogo de soma nula (se não contarmos com as taxas de bolsa) onde aquilo que uns ganham é aquilo que os outros perdem.
E antes de criticarmos os especuladores, devemos pensar a especulação enquanto um negócio, com um risco e uma remuneração associados, tal como qualquer outro negócio, desde o vizinho que montou o café até ao Belmiro de Azevedo.
Vale a pena pensar nisto...

O mercado falhou?

É interessante que a maioria dos comentadores e especialistas (nem vou perder tempo com os políticos) que aparecem nos nossos meios de comunicação não apresenta uma explicação minimamente coerente para as causas da corrente crise nem para como podemos dela sair.

A explicação mais corrente é que o mercado falhou. Não se sabe muito bem como nem porque, mas o que interessa é que falhou, toda a gente sabe que falhou, e pronto.

Foram demasiado longe na desregulamentação e deram demasiada liberdade aos mercados financeiros, isso foi a causa da crise, dizem outros. Como explicam então que mesmo nos EUA, considerados como o farol do capitalismo e dos mercados livres, um números infindável de regulamentações, dezenas de órgãos reguladores e fiscalizadores, já para não falar do FED, que também fiscaliza os bancos, e determina um dos preços mais importantes da economia (a taxa de juro de referência). Isto é que é um mercado desregulado? Um mercado livre?

Se o culpado não existe, como pode ser culpado?

Para sair da crise também é fácil, segundo o que é possível perceber pelos seus comentários. Basta os estados investirem fortemente e impor mais regulação e fiscalização nos mercados financeiros. Resumindo: mais estado e menos liberdade individual!

Artigo interessante do Professor César das Neves que toca neste tema.