Guerra Cambial = Tiro no Pé

Ultimamente, temos visto várias notícias sobre o surgimento de uma guerra cambial, com vários bancos centrais a intervirem nos mercados com a intenção de desvalorizar as suas moedas. Normalmente, estas notícias incluem explicações sobre como estas medidas são boas para as economias, porque promovem as exportações e aumentam o emprego. Acontece que estas notícias apenas relatam uma parte da história, esquecendo o resto, tal como na "falácia dos vidros partidos".

Antigamente, um país ter uma moeda estável, que ganhava valor em relação às mais fracas, era fonte de prestígio, e terá sido sobretudo esta a razão para o Estado Novo ter sempre seguido uma política de Escudo forte.

Mas há outras vantagens, para além do prestígio. Se uma desvalorização da moeda torna as exportações mais baratas, também torna as importações mais caras, beneficiando aqueles ligados às indústrias exportadoras e prejudicando todos os consumidores de produtos importados, reduzindo o nível de vida de grande parte da população.

Em relação a aumentar o emprego, isso é mais uma falácia. O que cria desemprego, de longo prazo, são as legislações laborais rígidas que restringem os despedimentos, e, consequentemente, as contratações. Se estão tão preocupados com o desemprego, retirem estes impedimentos à criação de emprego. Alterar artificialmente as taxas de cambio, apenas criará empregos em determinados sectores, em detrimento de outros sectores, mas no global não é razão para criar empregos, por si só, no longo prazo.

Os bancos centrais desvalorizam a sua moeda, em relação às demais, através da criação de moeda, ou seja, inflação, e isso também cria outros problemas. A inflação desincentiva a poupança, que é essencial para a acumulação de capital e para o crescimento económico, no longo prazo. Além disso, afasta o investimento externo (e leva os investidores internos para fora do país), porque isso aumenta a incerteza quanto ao valor dos retornos futuros. A inflação tem também alguns aspectos verdadeiramente imorais, como por exemplo o facto de atingir sobretudo as classes mais pobres (os ricos podem proteger-se através de investimentos, ou colocando dinheiro em países com moedas fortes, possibilidades que não estão disponíveis para aqueles com menos posses), e também os pensionistas, cujas reformas não são automaticamente actualizadas quando a moeda desvaloriza.

Da próxima vez que virmos estas notícias, temos de nos lembrar de todos os efeitos negativos que estas medidas causam, e não apenas daqueles que alguns iluminados nos querem mostrar. Por esta razão, eu acho positivo o estado português já não ter, à sua disposição, a ferramenta da desvalorização da moeda, para não nos poder lixar, sem termos culpa alguma, e sem que nada possamos fazer para nos proteger. Pode, ainda assim, lixar-nos de outras maneiras, como redução forçada de salários ou aumento de impostos, mas ao menos tem de nos dizer frontalmente que o está a fazer.

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